Cena 1 – Interior – Dia

Agosto 6, 2009

John Hughes

Filed under: Diretores — Cena Um @ 11:37 pm
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Minha adolescência não seria a mesma sem filmes como Mulher Nota 1000 (Weird Science), Pretty in Pink (esqueci o título em português) e meus dois preferidos de todos os tempos: Clube dos 5 (Breakfast Club) e Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off).

Na década de 80 o humor era muito, mas muito politicamente incorreto. E por isso mesmo era tão legal. O diretor e roteirista norte-americano John Hughes deu início a uma era de filmes teen inteligentes. Nada de peitos e bundas de Porkys. Seus filmes falavam de conflitos, amores, solidão .. sentimentos que todo adolescente conhece bem, mas que em seus filmes ganhavam contornos interessantíssimos. Diálogos bem colocados, histórias palpáveis, dramáticas sem exagero, leves, mas que faziam pensar.

Curtindo a vida adoidado é hoje um clássico. Sinopse: típico adolescente carioca resolve matar um dia de aula. E só. Um bom roteiro sempre começa de uma história simples. Tive um professor de roteiro que dizia o seguinte: você entra no mesmo elevador que Spielberg. Você aperta o 7 e ele o 5. Dizia ele .. se Spielberg te perguntar se você tem uma história para contar, ela será boa se você puder conta-la do térreo ao quinto andar. Estamos falando aqui da idéia e não da sinopse do filme. A idéia central dá consistência ao roteiro e, a partir dele, criamos situações e personagens.

A clareza dessa ideia é o primeiro passo na elaboração da escaleta e da sinopse do roteiro. Ah!… a história do elevador quem me contou foi o roteirista americano Syd Field. O papa do roteiro.

Partindo da premissa: Ferris que matar um dia de aula. Por que? Porque ele acha que a vida é curta e que, sim, ele merece um dia off. Com uma ideia tão simples, pode-se partir para a caracterização de Ferris. Quem ele é? Por que matar aula? E como esse dia off será tão interessante?

O filme é todo narrado pelo personagem principal para a câmera. Ele mesmo explica ao espectador o porquê dessa decisão. O que torna tudo muito interesante, uma vez que esse recurso não é comum no cinema. Sorte ou competência de Hughes, a atuação magistral de Matthew Broderick ajuda muito.

Essa opção requer diálogos afiados na boca de personagens que cativem o espectador, sem cair no pastelão ou na comédia física. A grande sacada de Hugher foi criar um protagonista cínico, divertido e boa gente. Ferris não quer matar aula por ser mau aluno ou péssimo filho. Não é rebelde. Ele apenas quer se dar um dia off. E não é isso que todos nós queremos fazer? Essa dicotomia torna a história saborosa.

Vejamos:

Nessa cena Ferris explica os motivos que o levaram a matar aula e sua explicação sobre sua performanece. Há na cena grande influência da linguagem MTV: caracteres, diálogos diretos para a câmera. A montagem contribui: ele fala do dia entrecortado por um céu azul de poucas nuvens. “It’s a little childish and stupid and then so is high school”. Ferris está atado a mediocridade das escolas americanos. Vamos entendendo que ele está adiante dos clichês “high school”. Ele continua: “a vida se move rápido e se você não para e olha em volta, acaba perdendo”. Em duas linhas, o tema central do filme e a motivação do personagem é explicada de forma clara ao espectador. Segundo Syd Field, se você consegue fazer isso até o décimo minuto do filme .. bang! .. sua história / premissa está estabelecida.

A cena prossegue e os personagem nos fornece mais detalhes. Ele tem um teste hoje. Mas sobre o que? O comunismo europeu. Para quem sempre se pergunta o porquê de estudar química orgânica quando seu desejo é ser jornalista, Ferris tem a resposta. “Não sou europeu, não pretendo ir a europa, não me interessa se são anarquistas ou facistas. Isso não muda o fato de eu não ter um carro”. 

Bravo!

Monólogos são difíceis. É preciso ter ritmo na fala e pausas na edição que não cansem o espectador. Ser ou não ser pode ser lindo no teatro, mas grandes textos no cinema, em geral, são chatos. Cinema é imagem. Pontos de vistas tem de ser explicados, traduzidos em imagem. A fala de Ferris e sua defesa ganham “vida” na sequencia da cena quando vemos seu professor fazendo a chamada. Toda a chatice e mediocridade falada pelo personagem principal ganham vida no tom de voz monocórdico do professor. A cara de tédio dos alunos, a indiferença do professor a hilariante explicação da adolescente loira, típica patricinha e fofoqueira nos fazem entender de forma clara porque o pobre Ferris merece seu day off.

Essa é a grande lição de qualquer filme: imagem. Roteiro é contar uma história com imagens e saber criar elos via imagens.

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